Ritual Sonoro transforma “Às Ervas” em manifesto audiovisual sobre cannabis medicinal, memória e direito ao cuidado
Coletivo do DF amplia sua caminhada entre reggae, hip hop e cultura sound system com uma obra que mistura videoclipe e documentário-ficção para discutir saúde, estigma e futuro.
O Ritual Sonoro acaba de entregar um trabalho que não cabe na lógica de lançamento comum. Em “Às Ervas”, o coletivo brasiliense usa a música e o audiovisual para construir uma obra que fala de cannabis medicinal, mas também de acesso, memória histórica, racismo estrutural e possibilidades de cura coletiva. O resultado é um clipe com ambição estética e política, sem perder o vínculo com a rua, com a arte independente e com os debates que atravessam o presente.
A faixa reúne letra de Sorte, produção de Adepe e participações de Bruno Wambier, Bruna Dornellas, Afroragga, Erik Schnabel e Pleno. Nas plataformas, “Às Ervas” aparece creditada a Pleno, Sorte e Artur Pompeu, com feats de AfroRagga, Bruna Dornellas, Bruno Wambier e Erik Schnabel, reforçando o caráter coletivo do lançamento e a rede de artistas que orbita esse núcleo criativo.
🌿 Assista agora ao clipe “Às Ervas” 🌿
Uma obra que nasce do encontro entre pesquisa, arte e posicionamento
Segundo o material enviado à West Side, “Às Ervas” nasce de um trabalho de conclusão de curso sobre cannabis medicinal e se expande em forma de canção e filme curto. Isso ajuda a entender o tom da obra: não se trata apenas de uma faixa temática, mas de um projeto que tenta articular conhecimento, linguagem popular e experiência sensível. A direção da Telúria Studios, a presença da multiartista Naomi Cary no centro da narrativa e a capa assinada por Ronny Vieira ajudam a dar unidade a um trabalho que pensa imagem e música como uma mesma travessia.
No clipe, a jornada da planta aparece da semente à colheita em agrofloresta, em paralelo à caminhada de um paciente. A escolha por cruzar documentário e ficção fortalece o discurso do projeto, porque desloca a cannabis do lugar do tabu automático e a recoloca no campo do cuidado, da pesquisa e da dignidade. Em vez de panfleto, a obra prefere construir símbolo. Em vez de simplificar, propõe reflexão.
Ritual Sonoro já vinha construindo esse caminho
Para entender “Às Ervas”, também é importante olhar para o que o Ritual Sonoro já vinha fazendo. O coletivo foi criado em Brasília entre 2023 e 2024 por Yuri Pleno e Erik Schnabel, a partir de uma parceria longa entre os dois e de uma visão que cruza reggae, hip hop, raggamuffin, espiritualidade e cultura sound system. Em 2025, o grupo estreou oficialmente com o single “Unidade”, apresentado como manifesto de ancestralidade, música preta brasileira e enfrentamento ao racismo.
Na cobertura anterior da própria West Side, o Ritual Sonoro já aparecia como projeto voltado à linguagem das ruas, aos paredões, ao dancehall e à conexão entre raízes jamaicanas e hip hop brasileiro. Erik Schnabel definia o show do coletivo como fruto de vivências, pesquisas e reflexões em torno da cultura sound system e do hip hop. Yuri Pleno, por sua vez, já tratava o grupo como parte de uma guerrilha cultural em que microfone e caixa de som ocupam o lugar de ferramenta de enfrentamento. “Às Ervas” amplia exatamente essa linha.
Saúde, estigma e o peso da história
O centro político do trabalho está na forma como ele reposiciona a cannabis. O depoimento de Pleno enviado à West Side define o projeto como uma homenagem à Cannabis sativa, planta de relação milenar com a humanidade e que, ao longo dos últimos séculos, foi demonizada e cercada de estigmas. A música propõe outra chave de leitura: trata a planta com a mesma dignidade que outras ervas tradicionalmente reconhecidas por seus usos terapêuticos e convida o público a rever o olhar automático construído em torno dela.
Esse debate não acontece no vazio. No Brasil, a Anvisa publicou em 2019 a RDC 327, que estabeleceu requisitos para a regularização de produtos derivados de cannabis no país, e desde então o tema avançou no campo sanitário, ainda que entre limitações, custo alto e debate público carregado de tensão moral. A própria agência apresentou a ampliação do acesso a terapias derivadas da planta como um dos objetivos da regulação.
Ao mesmo tempo, quando “Às Ervas” puxa a imagem da “carta de alforria”, ela empurra a discussão para outro terreno, o das continuidades coloniais. E esse ponto não é retórico. Estudo do Ipea sobre processos criminais por tráfico de drogas mostrou que pessoas negras representam 68% dos réus processados por crimes envolvendo drogas, embora correspondam a 57% da população brasileira. É nesse choque entre cuidado terapêutico, criminalização histórica e desigualdade racial que a música finca sua fala.
Um futuro imaginado a partir da periferia
O clipe propõe uma utopia concreta: imaginar um país em que o acesso à saúde seja mais democrático, menos atravessado por preconceito e mais vinculado à realidade das pessoas. Quando a narrativa desemboca na feira popular, o gesto simbólico é forte. O cuidado deixa de ser um privilégio distante e passa a ser imaginado como presença cotidiana, comunitária, popular.
Essa decisão estética aproxima “Às Ervas” daquilo que a melhor produção independente costuma fazer: não esperar autorização para discutir o país. O coletivo não pede licença para cruzar música, política, espiritualidade, território e medicina. Ele faz a obra existir no ponto exato em que esses temas se encontram.
Da Marcha da Maconha ao set de filmagem

Em depoimento enviado à West Side, Yuri Pleno acrescenta uma camada importante ao bastidor do projeto. Segundo ele, Naomi Cary, atriz do clipe, já havia se aproximado do grupo em uma apresentação na Marcha da Maconha, quando convidou a equipe para cantar no ato. Depois desse encontro, ela foi chamada para integrar o audiovisual. A conexão ajuda a explicar a naturalidade com que a obra mistura arte, corpo, ritual e posicionamento público.
O mesmo depoimento aponta ainda para o ambiente coletivo em que a música foi registrada, com menção a bastidores de estúdio e ao processo compartilhado de construção do trabalho. Isso reforça uma característica central do Ritual Sonoro: mais do que banda ou selo, o projeto funciona como articulação viva entre artistas, ideias e encontros.
Por que “Às Ervas” importa
“Às Ervas” importa porque não tenta reduzir a cannabis medicinal a slogan. Importa porque encara a planta como tema de saúde, tema histórico e tema cultural ao mesmo tempo. Importa porque junta artista, pesquisadora, produtora, atriz, direção audiovisual e participação de cena sem perder coerência. E importa, principalmente, porque entende que o hip hop, o reggae e a cultura sound system seguem sendo espaços férteis para discutir o presente com profundidade, sem abrir mão de ritmo, poesia e imagem.
Na prática, o Ritual Sonoro entrega uma obra que conversa com o DF, com o Brasil e com um debate internacional que ainda está longe de se resolver. Mas faz isso do seu jeito: com música preta, com linguagem de rua, com consciência e com uma visão de futuro em que a cura do indivíduo não se separa da cura do coletivo.
Redação West Side - PauloPowers

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