“Mixtape Pirata” anuncia o verão do BaianaSystem e inaugura nova fase criativa
A proposta conecta soundsystem, Carnaval e manifestações populares, ao mesmo tempo em que resgata a dimensão histórica e política desse tipo de música na formação cultural latino-americana.
Depois de um 2025 marcado por turnês internacionais, o BaianaSystem inicia 2026 com os pés firmes em outra direção: América Latina e Caribe. O grupo anuncia uma nova fase de criação com o projeto “Mixtape Pirata – Vol. 01”, que chega como um aquecimento oficial para o verão e se estende até o Carnaval.
O trabalho reúne releituras de faixas já consolidadas no repertório da banda, como “Lucro/Descomprimindo” e “Forasteiro”, além de canções inéditas e participações que ampliam ainda mais o caráter coletivo do projeto. Entre os convidados confirmados estão RDD, Coletivo SuperJazz e Tropkillaz, além de Claudia Manzo, presença recorrente nos shows do BaianaSystem.
O primeiro single lançado foi “Fanfarra Pirata”, disponibilizado em janeiro e responsável por apresentar o conceito central do projeto: a valorização das fanfarras como força musical e simbólica dentro da construção sonora da banda.
Fanfarra como estética e como reflexão histórica
A ideia de uma mixtape remete ao universo do soundsystem, mas, no caso do BaianaSystem, o projeto vai além da referência sonora: as fanfarras se conectam diretamente à música coletiva das manifestações de rua e ao espírito do Carnaval — uma música construída por músicos que fazem da rua o palco.
O projeto também propõe uma reflexão histórica. Em um momento em que as relações entre América do Norte e América do Sul se mostram cada vez mais tensionadas, o BaianaSystem resgata o fato de que a difusão das fanfarras no Brasil e na América Latina também está ligada ao processo de colonização. Em sua origem, essa música era utilizada como instrumento de disciplina e representação do poder colonial.
Com o avanço dos movimentos de independência latino-americanos, no entanto, iniciou-se um processo de transformação cultural: uma espécie de antropofagia musical, em que marchas e estruturas europeias passaram a se fundir com ritmos dos povos originários do Caribe, Andes, florestas e pampas, além das tradições percussivas africanas presentes no continente.
Apesar da repressão histórica das elites, essa fusão se consolidou nas manifestações populares e ajudou a formar uma nova base harmônica e rítmica que influenciaria profundamente os gêneros musicais brasileiros e sul-americanos.
Identidade latino-americana e símbolos de resistência
A relação das fanfarras com os processos de independência também aparece em símbolos nacionais, como o Sol de Maio, referência ao deus inca Apu Inti presente nas bandeiras da Argentina e do Uruguai — símbolo que já ecoava em “América do Sol”, terceiro ato do álbum “OXEAXEEXU” (2021).
A influência também se manifesta em tradições como adaptações do hino nacional cubano executadas por bandas municipales, e nas celebrações de independência do Brasil na Bahia, em que fanfarras acompanham o cortejo do Caboclo, símbolo ligado a povos originários, mestiços e negros, reconhecido como emblema popular e espiritual da identidade nacional.
O futuro do BaianaSystem passa pelos sopros e metais
Em “Mixtape Pirata – Vol. 01”, a fanfarra surge como uma nova alma musical dentro do universo do BaianaSystem. O projeto aponta para uma inserção ainda mais profunda de sopros e metais, conectados ao DNA das bandas marciais e das orquestras do interior, mas guiados pela assinatura que sempre sustentou a banda: a guitarra baiana e a força rítmica afropercussiva.
“Fanfarra é inspirada em musicistas com quem tivemos a honra de tocar, e é também uma justa homenagem às diversas instituições e grupos espalhados pelo país, que são escola e representam uma memória coletiva da música brasileira”, afirma Roberto Barreto, guitarrista do grupo.
O músico também destaca que, dentro do espetáculo, a fanfarra assume protagonismo como ornamento melódico, como em uma ópera ou em discos como “O Mundo Dá Voltas”. Mas no Brasil, essa estética ganha outro corpo: a percussão assume papel central e, na Bahia, se torna afropercussiva, criando uma polivalência musical que conecta tradição e futuro.
Com “Mixtape Pirata – Vol. 01”, o BaianaSystem não apenas anuncia o verão: anuncia uma nova rota artística — mais latina, mais coletiva e mais conectada às raízes políticas e culturais que sempre moveram a banda.
Por Redação.
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